Quase um ano de Suécia!

Quando eu fiz o blog, eu achei que ia escrever um monte nele, pois bem, não é bem o que vem acontecendo! Estou tendo uma certa dificuldade (aka preguiça) para atualizar. Mas hoje estou aqui!

Já faz quase um ano que cheguei na Suécia e muita coisa já aconteceu. O que me deixa mais feliz é que eu me adaptei muito bem e me sinto muito feliz por aqui, tenho aquela sensação de que finalmente encontrei o que eu procurava. Pode ser meio óbvio se acostumar a um país onde tudo funciona e todo mundo se respeita, mas é mais do que isso, eu realmente me sinto feliz por estar aqui. Não é a primeira vez que moro em outro país, mas é a primeira vez que não sinto saudades do que ficou para trás. Claro que eu amo minha família, meus amigos e o meu cachorro, mas eu me contento em vê-los uma vez ao ano, nas férias.

O primeiro ano do mestrado já se foi! Passou tão rápido. Eu gostei muito das matérias que eu fiz, tive boas notas (nunca fui ótima aluna na escola ou na graduação, sempre fui normal, mas aqui tirei nota máxima em quase todas as matérias!) e aprendi muito. Eu gosto da proximidade que temos com os professores e com o cuidado que eles têm com os alunos por aqui. Tive isso na UFSC também, mas com alguns professores, não todos. Aqui também dá pra melhorar a nota até chegar onde quer, dá pra refazer provas e trabalhos sempre que quiser, então por isso as notas boas. Eu acabei tendo que refazer o trabalho inteiro de uma matéria, mas não fiz pela nota, fiz para aprender mesmo, porque eu tinha entendido tudo errado a proposta dele. Foi um pouco estressante, mas valeu a pena!

Não é muito fácil se aproximar dos suecos na universidade, mas eu fiz poucos e bons amigos que já valeu a pena. Também conheci meu namorado, que é sueco, e talvez isso tenha ajudado nessa adaptação tão tranquila. Dizem que os suecos não gostam que a gente puxe conversa no elevador, mas eu tenho um vizinho que tem uma cachorrinha muito linda, ela era filhote quando vi eles pela primeira vez e eu me ofereci para cuidar dela quando ele precisasse. Ele primeiro ficou meio desconfiado, mas acabou me procurando para ficar com ela enquanto ele trabalhava, alguns dias. Hoje temos praticamente uma guarda compartilhada, a cachorra dorme na minha casa, na minha cama e passa alguns finais de semana comigo!

O que falta ainda é eu ficar fluente na língua sueca! Geralmente, não faz muita falta, porque todo mundo realmente fala inglês, mas por exemplo, nesse fim de semana fui em um casamento, e eu era provavelmente a única pessoa que não falava sueco. Teve mil discursos que eu não entendi metade e na minha mesa estavam todos falando sueco. Fiquei meio perdida, no meu mundo, a festa inteira. Estou fazendo aulas de sueco, cada dia entendo um pouco mais, mas ainda não consigo falar. Está meio lento o processo!

Fui convidada pela minha universidade para ser uma Student Ambassador, onde eu agora ajudo a divulgar a universidade para futuros estudantes não europeus que estejam interessados em vir pra cá. Eu ajudo eles a atualizar o blog, as mídias sociais e em novembro vou com eles ao Brasil para participar de umas feiras de estudante.

Também comecei a trabalhar em Estocolmo, em um estágio de verão, na Stora Enso, uma empresa sueca-finlandesa que é mais antiga que o Brasil (tem 800 anos!). Trabalho com pesquisa sobre materiais renováveis para a construção. Estou muito feliz de morar, mesmo que apenas por três meses, nessa cidade tão linda. E feliz pela experiência de trabalhar em uma empresa tão grande e estruturada.

Este último ano foi de muito aprendizado, parece que foram 5 anos em 1. Muitas experiências novas e positivas. E até ao inverno sueco eu sobrevivi sem problemas! Aproveitei para fazer o que sei de melhor: dormir!

Gotemburgo no Inverno

Gotemburgo no Inverno

E no verão...

E no verão…

Essa é a Chili, a cachorrinha que eu cuido :)

Essa é a Chili, a cachorrinha que eu cuido 🙂

Novos amigos...

Novos amigos…

Velhos amigos...

Velhos amigos…

Muito amor!

Muito amor!

Viagens

Viagens

E cafés!

E cafés!

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Primeiras impressões: Universidade

Já faz quase 3 meses que estou na Suécia e essa é a primeira vez que eu escrevo! Isso é uma vergonha! Mas a única explicação que eu tenho é que com tanta informação nova eu não consegui organizar minhas ideias para escrever. Mas decidi começar e vou dividir por temas.

Eu AMEI a universidade, ela é toda linda, cheia de poltronas e salas gostosas pra estudar, cheio de cafés gostosos, até pubs com cervejas diferentes e pessoas lindas. Aqui o ano acadêmico é dividido entre Autumn (outono) que vai de setembro a janeiro e Spring (primavera) que vai de fevereiro a junho. Cada semestre é dividido em dois períodos de dois meses cada, então fazemos 2 ou três matérias cada bimestre e elas duram no máximo isso. É bastante informação pra dois meses, mas ao mesmo tempo achei legal poder se dedicar só para duas matérias de cada vez. No final de cada bimestre tem uma semana de provas e as provas aqui são como eu já tinha experimentado na Itália, bastante “decoreba”. Tem que ler toooda a bibliografia e estar preparada para perguntas bem específicas, nada de “migué”. Eu já terminei minhas duas primeiras matérias e fui bem nas duas, sou linda!

Outra coisa bem diferente é que aqui o certo é chamar os professores apenas pelo primeiro nome, assim bem íntimo, até mesmo nos e-mails. No início eu chamava eles de “Professor…” e eles me “corrigiam”. Acho legal esse clima informal e soube que é assim nas empresas também. Os professores também têm uma relação próxima com os alunos, mesmo sendo bastante alunos por turma (uma matéria tinha 60 e na outra, 120 alunos) eles me chamam pelo nome e são bem atenciosos. Ok que eu sempre sento na frente, aí eles estão sempre vendo a minha cara! Mas aula em inglês com sotaque sueco (pessoas mais velhas têm um sotaque forte), se eu sentar lá atrás eu vou me distrair com as cabeças loiras na minha frente, tem que ser assim.

A cada 45 minutos de aula, RELIGIOSAMENTE, tem um intervalo de 15 minutos para o café! A Suécia é o segundo país que mais consome café no mundo, ficando atrás apenas da vizinha Finlândia. O café é forte, mas já acostumei! E sim, eles tomam em todos os intervalos. Eu aderi o chá, porque se eu tomar um café a cada intervalo vou ficar mais louca que o esquilo da Era do Gelo. Se os professores atrasam 1 minuto para liberar para o intervalo, os alunos já começam a ficar nervosos!

Esse primeiro semestre eu estou fazendo apenas as matérias obrigatórias do meu curso que são: Construction Governance, Project Management, Managing Organisations in the Construction Industry e Construction Contracts Relationship. Bastante teoria, mas os professores sempre trazem a prática pra sala. Temos aulas com convidados que são pessoas que trabalham em grandes empresas de construção, com consultoria, com leis, bem interessante. Percebi que algumas empresas já ficam “de olho” na gente, volta e meia tem “café da manhã da Skanska” ou “almoço da PEAB” para nós, na universidade. Eu participo de tudo, mas meio perdida, porque é tudo em sueco e, POR ENQUANTO, eu ainda não falo essa língua dos vikings que parece a língua dos elfos do Hobbit! Apesar de ter mais suecos do que estrangeiros, o curso é todo em inglês. Até mesmo quando os suecos querem fazer perguntas para os professores, também suecos, eles têm que fazer em inglês. Eu perguntei para alguns colegas se eles não se incomodavam com isso, mas todos dizem a mesma coisa, que eles não se importam e que é bom porque a bibliografia é sempre em inglês mesmo e que quando traduzem os livros pra sueco eles ficam uma porcaria. Aqui todo mundo fala inglês perfeitamente.

No próximo semestre eu já posso escolher as matérias, mas dentro das opções que meu curso oferece. Uma das optativas que decidi pegar é Arquitetura Nórdica 🙂

No meu curso são aproximadamente 15 estudantes internacionais e 35 suecos, a maioria teve a graduação em engenharia civil. Tem eu e mais umas duas pessoas que fizeram arquitetura, o que me dificulta, às vezes, a entender algumas coisas (mas, às vezes, até ajuda).

Além do meu mestrado, eu faço aulas de sueco, mas tá devagar o processo. Não entendo quase nada do que falam ao meu redor, mas consigo já ler um pouco.

Algumas fotos da universidade pra vocês entenderem a lindeza que é:

Biblioteca

Biblioteca

Prédio do Departamento de Engenharia Civil

Prédio do Departamento de Engenharia Civil

Recepção dos estudantes internacionais

Recepção dos estudantes internacionais

Competição de pontes de madeira dos alunos do primeiro ano de Engenharia Civil

Competição de pontes de madeira dos alunos do primeiro ano de Engenharia Civil

Campus Lindholmen

Campus Lindholmen

Outono no campus

Outono no campus

Pub Quiz no pub da universidade

Pub Quiz no pub da universidade

Onde vou estudar

Chalmers_University_of_Technology

Chalmers University of Technology – Campus Johanneberg

A Universidade Técnica Chalmers (em sueco Chalmers Tekniska Högskola e em inglês Chalmers University of Technology) fica em Gotemburgo (Gotebörg) na Suécia, focada em pesquisa e educação em engenharia, tecnologia, ciências naturais, arquitetura, ciências marítimas e outras áreas de gestão.

Foi fundada em 1829, e tem 10.300 estudantes – chamados ”chalmerists”. Tem dois campi: Johanneberg e Lindholmen. O Campus de Johanneberg – o principal, o que eu vou estudar – é o local dos cursos de engenharia civil e ainda das instalações do corpo de alunos. O Campus Lindholmen é o local dos cursos de arquitetura naval e alguns cursos de design.

Aproximadamente 40% dos engenheiros e arquitetos da Suécia estudaram na Chalmers. Atualmente, 10% dos estudantes são estrangeiros, principalmente nos programas de mestrado e doutorado.

Em 2011, o International Professional Ranking of Higher Education Institutions, estabelecido com base no número de alunos que ocupam um lugar de chefe executivo (CEO) ou o equivalente em uma das empresas da Fortune Global 500, a Chalmers ficou com a 38ª classificação no mundo, 1° na Suécia e 15° na Europa. No último (2014) Academic Ranking of World Universities, a universidade foi classificada na 201ª colocação das universidades do mundo.

Alunos notáveis:

  • Gustaf Dalén, Prêmio Nobel em Física
  • Leif Johansson, CEO Volvo
  • Leif Östling, CEO Scania AB
  • Peter Augustsson, CEO Saab Automobile
  • Lars G. Josefsson, CEO Vattenfall
  • Hans Stråberg, CEO Electrolux
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Campus Lindholmen

Como eu consegui o mestrado?

Aplicar para mestrados em universidades estrangeiras é sempre parecido, mas cada universidade tem seu processo e exige uns documentos a mais ou a menos. Então o primeiro passo é escolher um país e uma universidade, ser formado e ter um bom inglês (ou a língua do curso). Existem bolsas pelos Ciências sem Fronteiras, Erasmus Mundus e bolsas oferecidas pelas universidades. Mas vou falar especificamente da Suécia.

Antes mesmo de eu saber da existência da bolsa oferecida pelo concurso Sweden-Brazil Scholarship Challenge, eu já havia pesquisado sobre mestrados na Suécia. Mas me deparei com o alto custo, tanto dos mestrados, quanto do custo de vida. Um mestrado de 2 anos chega a custar R$120.000,00, fora o curso de vida, que varia de uma pessoa para outra, mas não é baixo. Então eu comecei a procurar bolsas. As universidades oferecem algumas bolsas para cidadãos que não são da União Europeia (75% ou 100% de isenção das taxas do curso), e o Swedish Institute também oferece bolsas de 100% + ajuda mensal para o custo de vida. Mas para tentar as bolsas, você tem que se inscrever primeiro nas universidades, ser aceito em alguma e, então, aplicar para uma bolsa. Ou seja, tem que providenciar todos os documentos necessários, mesmo sem saber se vai dar certo. Se você tem uma cidadania europeia, os mestrados são de graça. Aqui em Santa Catarina é um pouco comum, tenho muitos amigos que têm passaporte italiano, por conta dos seus descendentes.

Mas, diferente do normal, eu ganhei a bolsa antes de aplicar pra universidade, porque o concurso foi antes do período de inscrições. Foi um caso à parte. Como escrevi no primeiro post, eu ganhei em primeiro lugar do concurso, ou seja, uma bolsa para o mestrado e um estágio remunerado. A minha bolsa foi dada pela própria universidade por intermédio do Student Competitions e o CISB (Centro de Integração Suécia Brasil, no qual participam empresas, universidades e governos da Suécia e Brasil).

Passado isso, tive que aplicar para a universidade como qualquer cidadão sueco ou internacional, numa plataforma unificada, o UniversityAdmissions.se para garantir minha vaga na universidade. O site Study in Sweden me ajudou muito a encontrar todos os caminhos.  A inscrição é online e logo em seguida tive que enviar cópias autenticadas de todos os documentos para eles por correspondência.

Os documentos necessários foram:

  1. histórico da graduação (com tradução juramentada para o inglês)
  2. diploma (com tradução juramentada para o inglês)
  3. certificado do teste de inglês IELTS com nota mínima 6.5 (podia ser TOEFL também)
  4. uma carta de motivação
  5. curriculum vitae
  6. carta de recomendação de algum professor ou empregador
  7. portifólio

Meses depois, recebi a resposta que fui admitida e me enviaram, por e-mail e por correspondência, os papéis provando que eu tinha sido aceita e que tinha uma bolsa de estudos, para então dar entrada no processo de Resident Permit (algo como um visto) no Swedisn Migration Board. O documento ficou pronto em 3 semanas e pude buscá-lo no Consulado da Suécia no Rio de Janeiro.

Não tive problemas com todo esse processo, mas é trabalhoso, demorado e oneroso.

O IELTS eu fiz em Florianópolis. É uma prova cansativa, durou cerca de 4 horas. Eu não tive tempo de estudar, pois quando decidi fazer a prova, ela já aconteceria em duas semanas, mas assim que paguei a inscrição, recebi um acesso aos simulados e isso foi muito importante, pois pude treinar e pegar o jeito da prova. O importante é gerir bem o tempo na hora da prova, pois é muito apertado. E é importante já ter um inglês razoável, caso contrário, tem que se preparar em mais tempo, eu acredito. No fim, tirei 7.0 (de 9.0) e essa nota já é suficiente para os mestrados na Suécia (e na Europa em geral).

A tradução eu também fiz em Florianópolis e é bem simples, enviei os documentos pro tradutor por e-mail e, ao buscar, que mostrei à ele os documentos originais.

Com tudo na mão, aceitei um contrato de aluguel oferecido pela universidade, vi fotos e a localização do apartamento e não hesitei em aceitar. Por fim comprei a passagem. Todo esse processo durou quase um ano.

Se alguém estiver interessado em estudar na Suécia e tiver alguma dúvida, sinta-se a vontade para me perguntar nos comentários. Cada etapa do processo tem suas particularidades. Eu sei que abriram agora muitas bolsas em 2013 e 2014 para a graduação pelo Ciências Sem Fronteiras e até para mestrado, mas não pesquisei, porque não era o meu caso, mas tenho uma amiga que se formou comigo que está indo para os Estados Unidos fazer mestrado pelo Ciências Sem Fronteiras, e ela também tem um blog e lá tem muitas informações legais e úteis.

Píppi Meialonga

Quando eu tinha uns 10 ou 12 anos, eu e uma grande amiga de infância adorávamos (muito, inúmeras vezes, por anos) cantar a música de abertura do desenho Píppi Meialonga que passava na Nickelodeon. Muitos anos depois, quando eu visitei Estocolmo, eu vi a boneca da Píppi em todas as lojas de souvenir, então eu soube que era uma personagem infantil famosa na Suécia. Lembrei dessa minha amiga, tirei uma foto pra ela e ela fez o mesmo esse ano quando visitou a Suécia. Mas era tudo o que eu sabia sobre a Píppi.

Píppi Meialonga

Estou lendo um livro sobre o sistema de governo da Suécia, sua transparência e igualdade entre políticos e povo, como falei no post anterior, e eis que me deparo com a história da Píppi e sua escritora e vi que ela é, na verdade, bem interessante. Fiquei chocada ao saber que a Píppi é uma feminista! Com tanta coisa interessante no livro eu venho escrever sobre a Píppi Meialonga. Não me julgue. Não adianta, sempre me atraio mais pela parte criativa. Mas sim, o livro é muito interessante e eu estou encantada com fatos como: ser vereador na Suécia é um trabalho voluntário que não tem salário, ocupa algumas horas na semana e os vereadores são pessoas com empregos normais, professores, enfermeiros, mas também são vereadores “nas horas vagas” e isso funciona muito bem.

O dinheiro público na Suécia é muito fiscalizado pelo povo porque os impostos são bem altos.

Abaixo, a história da Píppi e de quando sua autora quase teve que pagar 102% de imposto de renda (!!):

“Um exemplo notório do folclore fiscal sueco é o caso da autora Astrid Lindgren, que revolucionou a literatura infantil com a personagem Píppi Meialonga. Ela, que sofreu nas garras do leão sueco pouco depois do caso de Ingmar Bergman, faria um dos ataques mais contundentes ao sistema de impostos sueco da época.

Astrid Lindgren, era, como se poderia imaginar, boa de briga. Sua Píppi Meialonga enfrentava touro à unha, dava surra em garotos, botava ladrões para correr. A autora sueca a criara em 1945, numa época em que meninas usavam laços de fita no cabelo, faziam crochê e esperavam pelo príncipe encantado chegar trotando em seu cavalo branco. Mas a forte e ilibertária Píppi morava sozinha, era feminista em plena década de 1940, e não só tinha o próprio cavalo, como podia carregá-lo no muque.

A história de Píppi Meialonga chegou às livrarias entre críticas generalizadas. Os detratores da personagem alertaram para um colapso da moral pública.

Mas o sucesso foi imediato e estrondoso: a história de Píppi seria o primeiro dos mais de setenta livros escritos por Astrid Lindgren, traduzidos para mais de setenta idiomas.

Lindgren tornou-se uma celebridade, e começou a ganhar dinheiro. Pagar o quinhão do leão sueco não era problema: – Pago meus impostos de bom grado – disse ela mais de uma vez. Mas os problemas que ela teria mais tarde com o Fisco seriam tão surreais quanto os personagens de suas histórias.

Naquele ano de 1976, Astrid Lindgren descobriu que teria que pagar 102% de sua renda em impostos: uma nova regra em vigor para profissionais liberais – categoria em que a autora se incluía – implicava na absurda consequência de que pessoas como Astrid deveriam pagar mais em imposto do que haviam recebido como renda. Foi quando a autora decidiu, com a mesma língua afiada de sua Píppi, escrever uma sátira criticando a nova carga tributária imposta pelo partido Social-Democrata, que governava a Suécia havia mais de quatro décadas.

A história, intitulada Pomperipossa in Monismania (também conhecida como Pomperipossa no Mundo do Dinheiro), foi publicada no jornal Expressen em março de 1976. Narrava a alegoria de Pomperipossa, uma autora de livros infantis a um país distante, que, diante de uma desatinada carga de impostos a pagar, começa a se perguntar se os sábios governantes do lugar tinham perdido o juízo.

-Pomperipossa amava de verdade seu país, suas florestas, montanhas, lagos e verdes bosques. Mas não apenas isso: ela também amava as pessoas que viviam ali. Até mesmo os sábios homens que governavam o país. Ela achava que eles eram sábios, e por isso votava neles a cada vez que havia uma eleição em Monismanien. Eles haviam criado nos últimos quarenta anos uma admirável sociedade, na qual ninguém precisava ser pobre, e todos ganhavam um pedaço do bolo do bem-estar social. Pomperipossa se sentia feliz por ter podido contribuir com a sua parte na preparação do bolo – escreveu Astrid.

A alegre Pomperipossa descobre, então, que naquele ano teria que pagar um imposto de 102% sobre sua renda. E põe-se a imaginar diferentes saídas para o disparate.

-Se eu procurar os sábios governantes e bater à sua porta, pode ser que eles se compadeçam e me deem um prato de sopa de vez em quando – diz a autora imaginária, desfiando uma sequência de ironias que constrói a narrativa tragicômica.

A saga de Pomperipossa transformou-se em assunto de debate no Parlamento, e produziu choques elétricos no governo. O ministro das Finanças, que num primeiro momento havia refutado os argumentos da autora, acabou admitindo que Astrid havia apontado um erro que deveria ser corrigido. As regras tributárias foram de fato emendadas. Mas o embate provocado por Pomperipossa foi, na avaliação de alguns, um dos fatores que determinaram a derrota dos social-democratas nas eleições daquele ano.

A autora, contudo, permaneceu fiel ao partido durante toda a sua vida.”

Astrid Lindgren

Um país sem excelências e mordomias

Esses dias eu vi no Programa do Jô uma jornalista brasileira, Claudia Wallin, que mora na Suécia há 10 anos e escreveu um livro sobre a política (e os políticos) na Suécia. Comprei o livro na Saraiva e comecei a ler hoje, estou gostando muito. Fala desde os vikings, que eram povos já democráticos, sem líderes absolutos, até hoje, onde os políticos ganham o mesmo salário que os professores da rede primária.

Atrás do livro:

“Que país é este? Ler este livro é algo obrigatório para todo deputado, senador, ministro, juiz, desembargador, governador, presidente, secretário, prefeito, vereador. E, sobretudo, para o eleitor. Para ele, é quase um guia de sobrevivência na selva da política brasileira. Claudia Wallin trata da Suécia, mas é impossível não pensar no Brasil a cada parágrafo. Com cinismo, cólera, amargura. Ou com esperança. Por que não? Afinal, prova que existem políticos que desconhecem o tratamento de “Excelência”. Que não têm mordomias, não aumentam seu próprio salário, não têm gabinete próprio. Que usam transporte público e não estão na vida pública para fazer fortuna. E que respeitam – e muito – o eleitor. Um sistema apoiado em três pilares: transparência, escolaridade e igualdade. Um dia, quem sabe, chegaremos lá. Ler e se envergonhar com estas páginas pode ser o começo.”

Um trecho do início:

“A Suécia, há menos de 100 anos era um país pobre, mas habitado por um povo determinado a sair da pobreza e do atraso. E conseguiu. O segredo – que não é segredo – é sempre o mesmo: investimento em educação, ciência, tecnologia, justiça, projetos nacionais integrados que levam ao desenvolvimento com igualdade e justiça social.”

Capa do livro

Mestrado na Suécia

Uma das viagens que fiz durante o meu intercâmbio da graduação na Itália, em 2010, foi Estocolmo, na Suécia, e desde então coloquei na cabeça que um dia eu moraria lá.

Em 2013, recém-formada em Arquitetura e Urbanismo pela UFSC e me aventurando no primeiro emprego no Rio de Janeiro, me inscrevi em um concurso para ganhar uma bolsa de estudos na Suécia, o Sweden Brazil Scholarship Challenge e, pasmem, tirei em primeiro lugar! Eu, que nunca ganhei nada em sorteio, rifa, concurso, ganhei um mestrado na Chalmers University of Technology, com tudo pago, que inicia em setembro de 2014 e um estágio remunerado na SAAB ou StoraEnso, duas empresas suecas, que inicia em julho de 2015. Sim, foi meu dia de sorte. E na premiação, em São Paulo, eu conheci o Rei da Suécia (!!!!) Your Magesty The King Carl Gustav XVI!

Agora estou me preparando para mudar para a Suécia em agosto. Passagem, visto, contrato de aluguel e carta de admissão na universidade na mão. O mestrado será em Design and Construction Project Management e futuramente escreverei sobre isso a vida em Gotemburgo por aqui, assim como sobre o processo de admissão para as universidades europeias.

Link para a reportagem da premiação do concurso: http://studentcompetitions.com/posts/6-winners-awarded-in-the-sweden-brazil-scholarship-challenge-2014-prize-ceremony–2

Eu, os outros finalistas e o Embaixador da Suécia no Brasil

Eu, os outros finalistas e o Embaixador da Suécia no Brasil