Píppi Meialonga

Quando eu tinha uns 10 ou 12 anos, eu e uma grande amiga de infância adorávamos (muito, inúmeras vezes, por anos) cantar a música de abertura do desenho Píppi Meialonga que passava na Nickelodeon. Muitos anos depois, quando eu visitei Estocolmo, eu vi a boneca da Píppi em todas as lojas de souvenir, então eu soube que era uma personagem infantil famosa na Suécia. Lembrei dessa minha amiga, tirei uma foto pra ela e ela fez o mesmo esse ano quando visitou a Suécia. Mas era tudo o que eu sabia sobre a Píppi.

Píppi Meialonga

Estou lendo um livro sobre o sistema de governo da Suécia, sua transparência e igualdade entre políticos e povo, como falei no post anterior, e eis que me deparo com a história da Píppi e sua escritora e vi que ela é, na verdade, bem interessante. Fiquei chocada ao saber que a Píppi é uma feminista! Com tanta coisa interessante no livro eu venho escrever sobre a Píppi Meialonga. Não me julgue. Não adianta, sempre me atraio mais pela parte criativa. Mas sim, o livro é muito interessante e eu estou encantada com fatos como: ser vereador na Suécia é um trabalho voluntário que não tem salário, ocupa algumas horas na semana e os vereadores são pessoas com empregos normais, professores, enfermeiros, mas também são vereadores “nas horas vagas” e isso funciona muito bem.

O dinheiro público na Suécia é muito fiscalizado pelo povo porque os impostos são bem altos.

Abaixo, a história da Píppi e de quando sua autora quase teve que pagar 102% de imposto de renda (!!):

“Um exemplo notório do folclore fiscal sueco é o caso da autora Astrid Lindgren, que revolucionou a literatura infantil com a personagem Píppi Meialonga. Ela, que sofreu nas garras do leão sueco pouco depois do caso de Ingmar Bergman, faria um dos ataques mais contundentes ao sistema de impostos sueco da época.

Astrid Lindgren, era, como se poderia imaginar, boa de briga. Sua Píppi Meialonga enfrentava touro à unha, dava surra em garotos, botava ladrões para correr. A autora sueca a criara em 1945, numa época em que meninas usavam laços de fita no cabelo, faziam crochê e esperavam pelo príncipe encantado chegar trotando em seu cavalo branco. Mas a forte e ilibertária Píppi morava sozinha, era feminista em plena década de 1940, e não só tinha o próprio cavalo, como podia carregá-lo no muque.

A história de Píppi Meialonga chegou às livrarias entre críticas generalizadas. Os detratores da personagem alertaram para um colapso da moral pública.

Mas o sucesso foi imediato e estrondoso: a história de Píppi seria o primeiro dos mais de setenta livros escritos por Astrid Lindgren, traduzidos para mais de setenta idiomas.

Lindgren tornou-se uma celebridade, e começou a ganhar dinheiro. Pagar o quinhão do leão sueco não era problema: – Pago meus impostos de bom grado – disse ela mais de uma vez. Mas os problemas que ela teria mais tarde com o Fisco seriam tão surreais quanto os personagens de suas histórias.

Naquele ano de 1976, Astrid Lindgren descobriu que teria que pagar 102% de sua renda em impostos: uma nova regra em vigor para profissionais liberais – categoria em que a autora se incluía – implicava na absurda consequência de que pessoas como Astrid deveriam pagar mais em imposto do que haviam recebido como renda. Foi quando a autora decidiu, com a mesma língua afiada de sua Píppi, escrever uma sátira criticando a nova carga tributária imposta pelo partido Social-Democrata, que governava a Suécia havia mais de quatro décadas.

A história, intitulada Pomperipossa in Monismania (também conhecida como Pomperipossa no Mundo do Dinheiro), foi publicada no jornal Expressen em março de 1976. Narrava a alegoria de Pomperipossa, uma autora de livros infantis a um país distante, que, diante de uma desatinada carga de impostos a pagar, começa a se perguntar se os sábios governantes do lugar tinham perdido o juízo.

-Pomperipossa amava de verdade seu país, suas florestas, montanhas, lagos e verdes bosques. Mas não apenas isso: ela também amava as pessoas que viviam ali. Até mesmo os sábios homens que governavam o país. Ela achava que eles eram sábios, e por isso votava neles a cada vez que havia uma eleição em Monismanien. Eles haviam criado nos últimos quarenta anos uma admirável sociedade, na qual ninguém precisava ser pobre, e todos ganhavam um pedaço do bolo do bem-estar social. Pomperipossa se sentia feliz por ter podido contribuir com a sua parte na preparação do bolo – escreveu Astrid.

A alegre Pomperipossa descobre, então, que naquele ano teria que pagar um imposto de 102% sobre sua renda. E põe-se a imaginar diferentes saídas para o disparate.

-Se eu procurar os sábios governantes e bater à sua porta, pode ser que eles se compadeçam e me deem um prato de sopa de vez em quando – diz a autora imaginária, desfiando uma sequência de ironias que constrói a narrativa tragicômica.

A saga de Pomperipossa transformou-se em assunto de debate no Parlamento, e produziu choques elétricos no governo. O ministro das Finanças, que num primeiro momento havia refutado os argumentos da autora, acabou admitindo que Astrid havia apontado um erro que deveria ser corrigido. As regras tributárias foram de fato emendadas. Mas o embate provocado por Pomperipossa foi, na avaliação de alguns, um dos fatores que determinaram a derrota dos social-democratas nas eleições daquele ano.

A autora, contudo, permaneceu fiel ao partido durante toda a sua vida.”

Astrid Lindgren

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